Autor de clássicos como Pantanal, Renascer, O Rei do Gado e Terra Nostra morreu em São Paulo após complicações de insuficiência renal crônica; carreira atravessou seis décadas e marcou gerações de telespectadores
O Brasil se despediu nesta terça-feira (7) de um dos maiores nomes da história da televisão. O dramaturgo, escritor e novelista Benedito Ruy Barbosa morreu aos 95 anos, em São Paulo, após complicações provocadas por uma insuficiência renal crônica. Responsável por algumas das novelas mais emblemáticas da teledramaturgia nacional, o autor construiu uma carreira de mais de seis décadas retratando o interior do país, a vida no campo, a imigração e as transformações sociais brasileiras por meio de histórias que conquistaram milhões de telespectadores.
A morte foi confirmada pelo Hospital do Coração (HCor), onde Benedito estava internado. Segundo o boletim médico, o escritor enfrentava um quadro de insuficiência renal crônica havia cerca de três anos e apresentava histórico de reinternações por infecções recorrentes do trato urinário. Em janeiro deste ano, ele permaneceu quase três semanas hospitalizado para tratar uma infecção urinária associada à doença.
Natural de Gália, no interior de São Paulo, Benedito Ruy Barbosa nasceu em 17 de abril de 1931. A infância vivida entre fazendas, cafezais e pequenas cidades moldou a identidade de suas obras. Ao longo da carreira, transformou o cotidiano do homem do campo, dos boiadeiros, dos agricultores e dos imigrantes em protagonistas da televisão brasileira, criando narrativas que fugiam do ambiente urbano predominante nas novelas da época.
Sua trajetória começou na década de 1960, na extinta TV Tupi, mas foi ao longo dos anos seguintes que consolidou seu nome como um dos principais autores do país. Passou por emissoras como TV Excelsior, Record, Bandeirantes e TV Manchete antes de construir uma relação histórica com a TV Globo. Entre seus primeiros sucessos estão Cabocla, Sinhá Moça, Paraíso e Os Imigrantes, novelas que já demonstravam sua capacidade de unir dramas familiares, questões sociais e paisagens rurais em histórias profundamente brasileiras.
Em 1990, Benedito protagonizou um dos momentos mais marcantes da história da televisão ao escrever Pantanal para a TV Manchete. Após a sinopse ser rejeitada pela Globo, a novela foi produzida pela emissora concorrente e se transformou em um fenômeno de audiência, revolucionando a dramaturgia ao apostar em gravações em locações naturais, fotografia cinematográfica e uma narrativa fortemente ligada à cultura pantaneira. Décadas depois, a obra voltou ao centro das atenções com o remake exibido pela Globo em 2022, escrito por seu neto, Bruno Luperi.
De volta à Globo, Benedito viveu sua fase mais consagrada. Em sequência, escreveu produções que se tornaram referências da televisão brasileira, como Renascer (1993), O Rei do Gado (1996), Terra Nostra (1999), Esperança (2002) e Velho Chico (2016). Suas novelas conquistaram índices históricos de audiência, receberam premiações nacionais e internacionais e ajudaram a consolidar um estilo próprio de narrativa, marcado por personagens intensos, conflitos familiares, romances épicos e forte conexão com a cultura brasileira.
Outro aspecto marcante de sua obra foi a valorização das origens do Brasil. Enquanto muitos autores concentravam suas histórias em grandes centros urbanos, Benedito preferia explorar as transformações do campo, o impacto da imigração italiana e japonesa, a força do agronegócio, a religiosidade popular e a relação entre o homem e a natureza. Essa escolha fez de suas novelas um retrato da formação social e econômica do país.
Além da televisão, Benedito também escreveu peças teatrais e romances. Sua primeira grande obra dramatúrgica, Fogo Frio, nasceu inspirada na geada que devastou plantações de café no Paraná durante a década de 1950, episódio que influenciou profundamente sua visão sobre o meio rural e o sofrimento das famílias do interior.
A influência do escritor ultrapassou sua própria geração. As filhas Edmara Barbosa e Edilene Barbosa colaboraram em diversas adaptações de suas novelas, enquanto o neto Bruno Luperi assumiu a missão de atualizar alguns de seus maiores clássicos para uma nova geração de espectadores, mantendo viva a essência criada pelo avô.
