O sueco Peter Skyllberg desapareceu durante uma tempestade de neve em 2011 e só foi encontrado dois meses depois; médicos acreditam que um raro fenômeno conhecido como "efeito iglu" foi decisivo para sua sobrevivência
Imagine dirigir por uma estrada praticamente deserta no norte da Suécia durante o inverno e, em questão de horas, ver uma tempestade transformar completamente a paisagem. A neve se acumula rapidamente, as temperaturas despencam para cerca de -30 °C e, pouco a pouco, o carro desaparece sob uma espessa camada branca. Sem conseguir sair e sem qualquer possibilidade de pedir ajuda, restaria apenas esperar.
Foi exatamente isso que aconteceu com Peter Skyllberg, então com 44 anos. O caso, considerado um dos mais impressionantes episódios de sobrevivência da história recente, intrigou médicos, cientistas e especialistas em hipotermia ao redor do mundo depois que o sueco foi encontrado vivo 60 dias após desaparecer.
O desaparecimento
No dia 19 de dezembro de 2011, Peter dirigia por uma estrada próxima à cidade de Umeå, no nordeste da Suécia, quando ficou preso em meio a uma forte tempestade de neve.
Em poucas horas, o veículo foi praticamente soterrado. A neve bloqueou portas, janelas e boa parte da entrada de luz, enquanto a temperatura externa caiu para aproximadamente -30 °C.
Isolado e sem conseguir deixar o carro, Peter permaneceu completamente desaparecido durante semanas. Como a estrada era pouco movimentada, ninguém percebeu que havia um veículo enterrado sob a neve.
O resgate inesperado
Somente em 17 de fevereiro de 2012, quase dois meses depois do desaparecimento, dois homens que percorriam a região em motos de neve notaram uma pequena elevação branca que parecia esconder um carro abandonado.
Ao retirarem parte da neve do para-brisa, perceberam um leve movimento no interior do veículo.
Assustados, acionaram imediatamente os serviços de emergência.
Quando os socorristas chegaram, encontraram Peter extremamente debilitado, com sinais severos de hipotermia, desidratação e desnutrição. Ele mal conseguia falar e apresentava enorme dificuldade para se movimentar, mas estava consciente.
Segundo relatos da polícia sueca, Peter afirmou que não comia desde o dia em que ficou preso, sobrevivendo apenas ao consumir pequenas quantidades de neve derretida para se manter hidratado.
Como alguém conseguiu sobreviver por tanto tempo?
Essa foi justamente a pergunta que intrigou a comunidade médica.
Especialistas do Hospital Universitário de Norrland acreditam que a principal explicação está em um fenômeno conhecido como "efeito iglu".
Embora a temperatura do lado de fora permanecesse extremamente baixa, a grossa camada de neve que cobriu o automóvel funcionou como um isolante térmico natural.
Assim como acontece em um iglu tradicional, a neve impediu que todo o calor produzido pelo corpo escapasse rapidamente, fazendo com que o interior do carro permanecesse significativamente mais quente do que o ambiente externo. Ainda fazia muito frio, mas suficiente para reduzir drasticamente o risco de congelamento imediato.
O corpo entrou em modo de economia
Além do isolamento térmico, os médicos levantaram outra hipótese importante.
Segundo o médico Stefan Branth, o organismo de Peter provavelmente reduziu seu metabolismo a níveis extremamente baixos, em um mecanismo semelhante ao observado durante a hibernação de alguns animais.
Com menor atividade metabólica, o corpo passou a consumir muito menos energia e oxigênio, aumentando significativamente as chances de sobrevivência mesmo sem alimentação adequada durante semanas.
Embora seres humanos não hibernem como os ursos, casos extremos de hipotermia podem desacelerar diversas funções do organismo, diminuindo temporariamente a necessidade energética.
Um caso raríssimo
Mesmo para médicos acostumados a tratar pacientes expostos ao frio intenso nos países nórdicos, o caso de Peter foi considerado extraordinário.
Segundo os profissionais responsáveis pelo atendimento, existem relatos de pessoas que sobreviveram após passarem horas ou até alguns dias isoladas na neve. Permanecer vivo durante aproximadamente dois meses, porém, é algo extremamente raro.
Após o resgate, Peter foi internado em um hospital da região, onde recebeu tratamento para hipotermia, desidratação e desnutrição. Apesar do estado crítico em que foi encontrado, apresentou boa recuperação clínica nos dias seguintes.
