Lewis Hamilton transforma paixão pelo Brasil e propósito social em legado além da Fórmula 1

Em evento da Rimowa na Alemanha, heptacampeão falou sobre viagens, ancestralidade, saúde mental e impacto social

Lewis Hamilton já venceu corridas históricas, quebrou recordes praticamente inalcançáveis e redefiniu o conceito de longevidade dentro da Fórmula 1. Mas, nos últimos anos, o piloto britânico parece cada vez mais interessado em construir algo maior do que resultados nas pistas. Durante um evento realizado pela Rimowa em Colônia, na Alemanha, Hamilton mostrou um lado muito mais humano, reflexivo e emocional - distante do ambiente competitivo que normalmente define sua imagem pública. E foi justamente ao falar sobre propósito, ancestralidade e impacto social que o piloto voltou a demonstrar por que sua influência hoje ultrapassa o esporte.


O encontro aconteceu na flagship da Rimowa, marca de luxo da qual Hamilton é embaixador, e reuniu convidados para uma conversa intimista sobre viagens, rotina, família e transformação pessoal. Durante o evento, o piloto recebeu uma case exclusiva desenvolvida para transportar seus discos de vinil ao redor do mundo, reforçando uma faceta pouco explorada de sua personalidade: a conexão profunda com música, design e experiências culturais.


Mas foi ao mencionar o Brasil que Hamilton provocou uma das reações mais fortes do público. “Eu amo o Brasil”, afirmou o piloto ao comentar os projetos sociais que desenvolve no país através da Mission 44, fundação criada para ampliar acesso à educação e às carreiras ligadas à ciência, tecnologia, engenharia e matemática para jovens de diferentes origens sociais.


A declaração não surpreende quem acompanha a relação construída entre Hamilton e o público brasileiro ao longo da última década. O piloto se tornou uma das figuras estrangeiras mais conectadas emocionalmente ao Brasil dentro do esporte mundial. Em diversos momentos da carreira, Hamilton demonstrou admiração explícita pelo país, especialmente pela cultura, pela música e pela história de Ayrton Senna - ídolo que ele frequentemente cita como uma das maiores inspirações da vida.


Em 2022, inclusive, Hamilton recebeu oficialmente o título de cidadão honorário brasileiro após proposta aprovada pela Câmara dos Deputados. A homenagem aconteceu justamente pela relação construída com fãs brasileiros e pelo posicionamento constante do piloto em pautas sociais e raciais.


Durante a conversa na Alemanha, o heptacampeão revelou detalhes da rotina extremamente intensa que vive fora das pistas. Segundo ele, são cerca de 140 voos por ano e passagens por mais de 25 países em uma única temporada da Fórmula 1. Mesmo assim, Hamilton explicou que tenta preservar pequenos rituais pessoais para manter equilíbrio emocional em meio à rotina globalizada do esporte.


O piloto contou que sempre viaja levando objetos capazes de criar sensação de conforto e pertencimento: travesseiros pessoais, velas aromáticas, mantas específicas para voos, fotografias e caixas de som fazem parte do que ele considera essencial para transformar quartos de hotel em algo próximo de um lar. “Estou sempre em hotéis, então preciso criar uma sensação de casa onde estiver”, afirmou.


A fala ajuda a revelar um lado raramente associado ao universo ultra competitivo da Fórmula 1. Hamilton descreveu a si mesmo como alguém extremamente sensível aos ambientes e admitiu ser um “overthinker”, termo usado para definir pessoas que pensam excessivamente sobre situações, emoções e experiências.


O tema ganhou ainda mais profundidade quando o piloto comentou sobre ancestralidade e identidade racial. Hamilton relembrou que durante boa parte da carreira era frequentemente “a única pessoa negra na sala”, especialmente dentro das equipes de engenharia da Fórmula 1. Segundo ele, esse desconforto foi justamente o que motivou a criação da Mission 44.


A fundação atualmente apoia dezenas de projetos sociais no Reino Unido, Estados Unidos e Brasil. Durante o GP de São Paulo, por exemplo, Hamilton costuma levar jovens ao paddock para conhecer profissionais da categoria e entender como funciona o universo da engenharia dentro da Fórmula 1. A proposta é ampliar representatividade em um esporte historicamente elitizado e pouco diverso. 


“Às vezes, uma criança só precisa enxergar que aquilo também pode ser possível para ela”, afirmou o piloto durante o evento.


Durante o evento, Hamilton afirmou que ainda sente a mesma paixão pelo esporte de quando começou a correr, aos oito anos. Segundo ele, a constante evolução tecnológica da categoria é justamente o que mantém sua motivação viva depois de mais de três décadas no automobilismo.


Talvez o ponto mais interessante da conversa tenha sido justamente esse contraste entre disciplina extrema e vulnerabilidade emocional. Em uma era onde atletas frequentemente são transformados em máquinas de performance, Hamilton parece caminhar no sentido oposto: usa sua posição para discutir identidade, propósito, saúde mental e legado humano.


Ao final do encontro, o piloto resumiu parte dessa filosofia ao falar sobre pensamento positivo e construção de futuro. “Tudo o que eu disse que faria, eu fiz”, comentou. “As pessoas precisam parar de limitar a si mesmas.”

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