Maior tesouro de prata da Era Viking é encontrado por acaso em jardim na Dinamarca

Descoberta reúne cerca de 700 objetos e 18,5 quilos de prata, incluindo moedas árabes e anglo-saxônicas, joias, barras e um pequeno martelo de Thor enterrados há aproximadamente 1.100 anos

Imagem ilustrativa

O que deveria ser apenas uma reforma no jardim de uma residência no norte da Dinamarca terminou em uma das descobertas arqueológicas mais importantes do país. Um morador do município de Rebild encontrou por acaso cerca de 18,5 quilos de prata da Era Viking enterrados em sua propriedade. Com aproximadamente 700 objetos e fragmentos, o conjunto foi identificado como o maior tesouro de prata do período já descoberto em território dinamarquês.


A descoberta aconteceu enquanto o proprietário, que preferiu permanecer anônimo, retirava grama, pedras e cascalho para construir um novo terraço. Cerca de meia hora depois do início do trabalho, sua ferramenta atingiu algo que produziu um som diferente. A primeira impressão foi de que se tratava de ferro velho, arame ou restos de cerâmica. Ao continuar cavando com as próprias mãos, porém, começaram a aparecer sucessivamente objetos metálicos. Logo ficou claro que havia joias, moedas e barras de prata escondidas sob o terreno.


O tamanho do achado surpreendeu até os especialistas. O tesouro pesa 18,5 quilos, quase três vezes o Terslevskat, encontrado em 1911 e até então considerado o maior tesouro dinamarquês de prata da Era Viking, com aproximadamente 6,5 quilos. Cerca de 320 peças do novo conjunto, que juntas pesam 6,4 quilos, ainda estavam dentro do recipiente de barro no qual foram depositadas. Os demais objetos acabaram espalhados pela terra ao redor.


Entre as aproximadamente 700 peças estão barras de prata, pulseiras, fragmentos de joias, pedaços de prata cortados e 47 moedas inteiras ou fragmentadas. Um dos objetos que mais chamaram a atenção é um pequeno pingente no formato do martelo de Thor, símbolo associado ao deus nórdico do trovão e frequentemente relacionado à proteção na cultura viking.


Mais do que o valor material, porém, é a composição do tesouro que está oferecendo aos pesquisadores novas pistas sobre a sociedade viking. Naquele período, a prata não precisava assumir a forma de uma moeda para funcionar como dinheiro. Barras, joias e outros objetos podiam ser pesados e utilizados como meio de pagamento ou reserva de riqueza. Peças maiores também eram cortadas em fragmentos para alcançar o peso necessário em determinada negociação.


A maneira como os objetos de Rebild estavam organizados reforça essa interpretação. Pesquisadores identificaram barras e fragmentos distribuídos em grupos de pesos semelhantes, indicando que o conjunto provavelmente não foi acumulado de maneira aleatória. Para o arqueólogo Torben Sarauw, responsável pela área de patrimônio cultural dos Museus do Norte da Jutlândia, a descoberta se assemelha a encontrar um verdadeiro “cofre” da Era Viking.


As moedas encontradas dentro do conjunto acrescentam outra dimensão à descoberta. Entre elas estão exemplares anglo-saxônicos associados ao reinado de Eduardo, o Velho, que governou entre 899 e 924, além de dirhams provenientes do mundo islâmico. A presença de prata de origens tão diferentes evidencia a amplitude das redes pelas quais mercadorias, pessoas e riquezas circulavam durante a Era Viking.


Embora popularmente associados sobretudo a invasões e conquistas militares, os vikings também estavam inseridos em extensas redes de comércio. A prata encontrada em um jardim dinamarquês estabelece conexões que alcançavam a Inglaterra a oeste e o mundo islâmico a leste. Os dirhams, inclusive, aparecem em alguns casos cortados, reforçando a lógica de que o que importava nas transações não era necessariamente o valor nominal da moeda, mas a quantidade e a qualidade da prata que ela continha.


Outro objeto intrigante é uma barra de prata marcada com uma inscrição rúnica que pode ser lida como “hutu”. Os especialistas ainda não sabem exatamente o que a palavra significa. Entre as possibilidades consideradas está a de que seja um nome ou uma marca relacionada à propriedade do objeto, acrescentando mais um mistério ao conjunto.


O tesouro também registra um período de transformação religiosa na Escandinávia. Enquanto o pequeno martelo remete diretamente às crenças nórdicas tradicionais, algumas barras apresentam marcas semelhantes a cruzes. A convivência desses símbolos em um mesmo conjunto é compatível com uma época em que práticas pagãs e o cristianismo coexistiam e disputavam espaço na sociedade escandinava.


As próprias moedas ajudam os arqueólogos a situar o tesouro no tempo. Os exemplares ligados ao reinado de Eduardo, o Velho, indicam que o depósito aconteceu depois do início do século X, e os especialistas acreditam que a prata tenha sido enterrada durante aquele século, há aproximadamente 1.100 anos. O motivo, entretanto, permanece desconhecido.


Também não se sabe quem era o proprietário daquela riqueza ou por que nunca voltou para recuperá-la. O esconderijo poderia estar relacionado a um assentamento, uma rota de circulação ou simplesmente ter sido escolhido como um lugar seguro para guardar uma grande reserva de prata. Encontrar respostas pode ser difícil porque atualmente existe uma área residencial sobre o local, limitando a possibilidade de uma investigação arqueológica mais extensa.


A região de Rebild, no entanto, já havia revelado outros vestígios importantes do período. Descobertas anteriores de metais preciosos reforçam a possibilidade de que a área tenha ocupado uma posição relevante durante a Era Viking e tornam o novo achado ainda mais significativo para compreender a presença e as atividades desses grupos no norte da Dinamarca.


Pela legislação dinamarquesa, o conjunto foi classificado como danefæ, denominação aplicada a objetos antigos de especial importância histórica encontrados no país. Com isso, as peças passam para o Estado e serão avaliadas pelo Museu Nacional da Dinamarca. A expectativa dos Museus do Norte da Jutlândia é que o tesouro possa posteriormente ser apresentado ao público no Museu Viking de Fyrkat.

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